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Escrever para a tendência: oportunidade ou armadilha?

há 3 dias
8 min de leitura

Há momentos em que parece que todos os livros estão falando a mesma língua.

De repente, as livrarias se enchem de fantasias com romance, capas escuras com detalhes dourados, protagonistas moralmente ambíguos, casamentos por conveniência, relações enemies to lovers, thrillers domésticos, narrativas de cura, memórias confessionais ou romances com cenas mais explícitas.

O leitor começa a reconhecer certos códigos.

As editoras procuram projetos com características semelhantes.

As redes sociais repetem os mesmos termos.

E o escritor se pergunta:

será que eu deveria escrever isso também?

A pergunta é legítima.

Escrever também é participar de um mercado. Livros circulam, disputam atenção, encontram leitores, entram em catálogos e respondem a movimentos culturais.

O problema começa quando tendência, gênero, trope e estratégia comercial passam a ser tratados como se fossem a mesma coisa.

Não são.

E compreender essa diferença ajuda a perceber quando uma tendência pode abrir uma oportunidade — e quando ela começa a empurrar o livro para longe daquilo que ele realmente precisa ser.


Tendência não é gênero

Um gênero literário tende a permanecer.

Romance, suspense, fantasia, terror, ficção científica, policial, poesia, ensaio.

Eles têm histórias, convenções, tradições e leitores formados ao longo do tempo.

Uma tendência funciona de outro modo.

Ela revela um movimento de atenção do mercado em determinado período.

Pode ser um gênero que ganhou novo impulso.

Pode ser um subgênero.

Pode ser determinado tipo de personagem.

Uma estética.

Uma estrutura.

Um tema.

Ou mesmo um conjunto de tropes que passa a aparecer com mais frequência.

A fantasia romântica é um bom exemplo.

Histórias que combinam romance e fantasia existem há muito tempo. Mas, em determinado momento, obras desse tipo podem ocupar mais espaço nas listas de mais vendidos, nas redes e nas aquisições editoriais.

O gênero não nasceu naquele instante.

O que mudou foi sua visibilidade.

Essa diferença é importante porque tendências têm ciclos.

O gênero continua existindo depois que a atenção diminui.


E trope também não é tendência

Outro termo cada vez mais presente na divulgação de livros é trope.

Enemies to lovers.

Found family.

Segunda chance.

Relacionamento falso.

Casamento por conveniência.

Só existe uma cama.

Identidade secreta.

Esses elementos podem ajudar o leitor a reconhecer rapidamente algumas dinâmicas que encontrará na história.

Mas eles não definem necessariamente o gênero.

Um enemies to lovers pode aparecer numa fantasia, num romance contemporâneo, numa ficção histórica ou até numa comédia romântica.

O trope descreve uma dinâmica narrativa recorrente.

A tendência descreve um movimento de atenção do mercado.

O gênero ajuda a compreender a promessa mais ampla da obra.

Misturar tudo isso pode parecer apenas uma confusão de nomes.

Mas essa confusão interfere diretamente na escrita.


O risco de começar pelo rótulo

Imagine que um escritor perceba que determinado tipo de romance está em alta.

Ele ainda não sabe exatamente que história quer contar, mas conhece os elementos que parecem funcionar naquele mercado.

Então começa pela lista:

precisa ter romance;

precisa ter determinado trope;

precisa ter uma protagonista com certas características;

precisa haver cenas explícitas;

precisa ter capítulos curtos;

precisa terminar com um gancho;

precisa parecer com os livros que estão circulando naquele momento.

Talvez tudo isso resulte numa história eficiente.

Mas existe outra possibilidade.

O livro começa a parecer uma reunião de características reconhecíveis sem possuir uma necessidade narrativa própria.

Cada elemento está ali porque “funciona”.

Mas ninguém sabe exatamente por que precisa estar naquela história.

Esse é um dos pontos em que tendência pode deixar de ser oportunidade e virar armadilha.


Tendência não deveria substituir projeto

Uma tendência pode ajudar a compreender o mercado.

Ela não deveria substituir as perguntas fundamentais do livro.

Quem é essa personagem?

O que ela deseja?

O que está em jogo?

Que conflito sustenta a narrativa?

Que experiência quero oferecer ao leitor?

Por que esta história precisa ser contada dessa maneira?

Essas perguntas pertencem ao projeto.

A tendência pode entrar depois.

Pode ajudar a perceber que existe um público especialmente receptivo àquela obra.

Pode colaborar no posicionamento.

Pode indicar referências.

Pode ajudar na divulgação.

Pode até revelar que um livro que já estava sendo escrito conversa com um movimento de mercado muito favorável.

Mas isso é diferente de construir toda a obra apenas para caber naquele movimento.


O problema do timing

Existe ainda uma questão que costuma ser esquecida.

Livros levam tempo.

Muito tempo.

Um romance pode passar meses — ou anos — entre:

planejamento,

escrita,

reescrita,

leitura crítica,

preparação,

revisão,

projeto gráfico,

produção,

publicação.

E esse tempo fica ainda maior quando o objetivo é publicação tradicional.

Aquilo que parece uma novidade quando o escritor começa o manuscrito pode estar saturado quando ele chega ao mercado.

É por isso que simplesmente observar o que está vendendo hoje e tentar reproduzi-lo pode ser uma estratégia frágil.

O livro que você começa agora provavelmente encontrará outro momento de mercado quando estiver pronto.

Esse é um dos motivos pelos quais editoras e agentes não observam apenas aquilo que está vendendo neste instante.

Também tentam compreender movimentos mais longos.


Moda passageira e gênero consolidado não são a mesma coisa

Há movimentos muito rápidos.

Uma estética de capa.

Um tipo específico de título.

Um recurso narrativo que começa a aparecer em muitos livros quase simultaneamente.

Há também fenômenos mais duradouros.

O romance continuará existindo quando determinado trope perder força.

A fantasia continuará sendo publicada quando uma estética específica desaparecer.

O suspense continuará encontrando leitores mesmo quando outro gênero ocupar as redes.

Para o autor, essa distinção é valiosa.

Antes de mudar um projeto para acompanhá-lo, vale perguntar:

estou olhando para uma moda ou para um campo literário consolidado?

Porque o nível de risco não é o mesmo.


“Mas editoras não procuram tendências?”

Procuram.

Naturalmente.

Editoras também precisam compreender o comportamento dos leitores.

Precisam pensar em catálogo, vendas, circulação, concorrência e oportunidade.

Mas isso não significa que estejam buscando apenas cópias do último sucesso.

Na verdade, existe um paradoxo frequente no mercado editorial:

quando um fenômeno fica suficientemente visível para que todo mundo perceba, muitas vezes dezenas de projetos semelhantes já estão circulando.

O autor chega pensando:

“isso está em alta”.

O editor talvez esteja pensando:

“já recebi vinte originais assim”.

Por isso, seguir uma tendência não significa automaticamente aumentar as chances de publicação.

Às vezes, significa aumentar a concorrência.


O que o mercado procura não é necessariamente repetição

Há uma diferença entre:

“quero algo igual ao que vendeu”

e

“existe um público interessado nesse tipo de experiência”.

A segunda pergunta é muito mais interessante.

Se determinado gênero está crescendo, isso pode significar que existe um público disponível.

Mas esse leitor não precisa necessariamente receber novamente a mesma história.

Ele pode estar procurando:

outra perspectiva,

outro contexto,

outra voz,

outra personagem,

uma inversão da convenção,

uma combinação inesperada.

É aí que a tendência deixa de funcionar como receita e passa a funcionar como informação de mercado.


Tropes podem ajudar — quando pertencem à história

Não há nada errado em trabalhar conscientemente com tropes.

Pelo contrário.

Eles podem ser excelentes ferramentas narrativas.

Um enemies to lovers, por exemplo, cria naturalmente:

conflito,

tensão,

aproximação gradual,

mudança de percepção,

expectativa.

Mas o trope precisa produzir consequências reais para aquelas personagens.

Se dois personagens são chamados de inimigos apenas porque discutem em três capítulos, talvez o trope esteja funcionando mais como embalagem do que como estrutura narrativa.

O mesmo acontece com qualquer outro.

Found family exige construção de vínculo.

Segunda chance depende de passado compartilhado e transformação.

Relacionamento falso precisa gerar consequências específicas.

O trope funciona quando estrutura relações e expectativas.

Não quando aparece apenas para poder ser colocado na divulgação.


O leitor percebe quando o livro foi montado por checklist

Talvez não conscientemente.

Mas percebe.

Há livros em que todos os elementos parecem familiares:

o trope certo,

a estética certa,

o ritmo certo,

o tipo de personagem certo,

a promessa comercial certa.

Mesmo assim, alguma coisa parece vazia.

Isso acontece porque reconhecimento não é o mesmo que envolvimento.

O leitor pode reconhecer rapidamente o que o livro oferece.

Mas ainda precisa encontrar personagens, conflitos e decisões que tenham vida própria.

A tendência pode fazê-lo abrir o livro.

Não garante que continuará lendo.


E onde entra a voz autoral?

Esse talvez seja o ponto mais delicado.

Quando um autor começa a acompanhar demais aquilo que está funcionando, pode passar a desconfiar do que existe de particular em sua própria escrita.

“Será que preciso deixar mais rápido?”

“Será que essa personagem precisa ser mais sarcástica?”

“Será que deveria acrescentar romance?”

“Será que deveria ter cenas mais explícitas?”

“Será que o final precisa ficar aberto para continuação?”

Talvez.

Mas talvez não.

A pergunta mais importante é:

isso melhora este livro ou apenas o aproxima de outros livros que estão vendendo?

Não são a mesma coisa.

Voz autoral também aparece na capacidade de escolher aquilo que a obra pede — mesmo quando essa escolha não é a mais óbvia comercialmente.


Isso significa ignorar o mercado?

Não.

Ignorar o mercado também não é uma virtude.

Principalmente para quem deseja publicar profissionalmente.

Conhecer leitores, gêneros, tendências e formas de circulação pode ajudar muito.

O problema está em transformar informação de mercado em comando criativo.

Há uma diferença enorme entre dizer:

“Percebi que existe um público crescente para histórias desse tipo”

e:

“Vou modificar meu livro inteiro porque isso parece estar vendendo”.

A primeira postura usa o mercado como referência.

A segunda entrega a ele a direção do projeto.


Quando seguir uma tendência pode ser uma oportunidade

Há situações em que o encontro entre projeto e tendência é muito favorável.

Você já escreve naquele gênero.

A história que deseja contar conversa naturalmente com o movimento.

Você conhece as convenções daquele campo.

A tendência ajuda a tornar a obra mais legível para o mercado.

Existe um público formado.

Há referências claras para posicionamento.

Nesse caso, não há conflito.

A tendência simplesmente encontra o livro no momento certo.

E isso pode ser excelente.


Quando ela vira armadilha

O sinal de alerta aparece quando você começa a mudar o núcleo da obra repetidamente conforme o mercado se movimenta.

O livro era uma coisa.

Uma nova tendência surge.

Você acrescenta elementos.

Outra ganha força.

Você altera novamente.

Em algum momento, o projeto começa a carregar tantas tentativas de adequação que já não sabemos mais qual era sua proposta inicial.

Outro sinal aparece quando o autor consegue explicar perfeitamente o mercado do livro, mas tem dificuldade para explicar a história.

Sabe os tropes.

Sabe os comparativos.

Sabe a estética.

Sabe o público.

Mas ainda não sabe dizer com clareza o que acontece e por que aquilo importa.

Aí o posicionamento passou a existir antes da obra.


Um bom teste: retire os rótulos

Experimente apresentar seu livro sem usar:

gênero,

trope,

tendência,

comparativos.

Não diga:

“é romantasia com enemies to lovers e found family”.

Conte a história.

Quem é a personagem?

O que acontece?

O que ela quer?

O que impede que consiga?

Que transformação está em jogo?

Se o projeto continua interessante sem os rótulos, eles provavelmente estão cumprindo uma função saudável: ajudar a comunicar algo que já existe.

Se o livro desaparece quando retiramos os rótulos, talvez eles estejam sustentando mais peso do que deveriam.


Outra pergunta importante: você escreveria esse livro se a tendência desaparecesse amanhã?

Essa pergunta costuma revelar bastante.

Imagine que amanhã ninguém mais fale daquele trope.

Que aquele subgênero deixe de dominar as listas.

Que outra estética ocupe as redes.

Você ainda gostaria de terminar esse livro?

Ainda teria curiosidade por essas personagens?

Ainda acreditaria naquela história?

Se a resposta for sim, ótimo.

Talvez você tenha encontrado uma boa combinação entre interesse autoral e oportunidade de mercado.

Se a resposta for não, talvez seja importante descobrir o que realmente sustenta o projeto.


Tendência pode ajudar a vender. Não pode escrever por você.

Há uma certa ansiedade compreensível em torno do mercado editorial.

Todo escritor que deseja publicar quer aumentar as chances de encontrar leitores.

E olhar para tendências parece oferecer algum controle.

Se descobrirmos o que as pessoas querem, talvez consigamos escrever exatamente aquilo.

Mas literatura não funciona apenas por previsão.

Há livros que chegam cedo demais.

Outros chegam tarde.

Outros parecem improváveis e criam sua própria demanda.

Outros entram numa tendência e se destacam justamente porque fazem algo inesperado dentro dela.

O mercado pode oferecer sinais.

Nunca garantias.


Então, oportunidade ou armadilha?

Pode ser as duas coisas.

É oportunidade quando a tendência ajuda o autor a compreender onde seu livro pode circular, quais leitores podem se interessar e como apresentar melhor a obra.

Vira armadilha quando começa a comandar escolhas que deveriam nascer do projeto.

Talvez a melhor relação com tendências seja esta:

observe muito. Obedeça pouco.

Entenda o que os leitores estão buscando.

Conheça os gêneros.

Reconheça os tropes.

Acompanhe movimentos de mercado.

Saiba posicionar a obra.

Mas, diante da página, continue fazendo a pergunta mais importante:

o que esta história precisa?

Porque uma tendência pode abrir a porta.

Mas é o livro que precisa fazer o leitor permanecer.

 
 
 

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